Publicado por: Mário Matos | 12/04/2009

O Choque dentro das Civilizações / The Clash within Civilizations

English version below.

Neste século ainda com cheiro a novo, parece-me que o verdadeiro choque de civilizações não é o choque entre Ocidente e Oriente, ou entre países cristãos e muçulmanos, nem qualquer outra linha divisória desse tipo. O verdadeiro choque situa-se dentro de cada uma dessas barricadas. Explico-me: o choque civilizacional de hoje é entre uma visão do mundo urbana — cosmopolita, tolerante, integradora da diferença — e uma visão nacionalista, provinciana, retrógrada, fundamentalista. Não é por acaso que a palavra civilização deriva de civitas: da cidade. Isso acontece nos Estados Unidos como acontece no Irão. Acontece em Portugal, como acontece por toda a Europa. Com avanços e recuos, mas, para já, com uma grande vitória do campo — chamemos-lhe assim — «progressista». Refiro-me a Barack Obama, claro. Essa foi uma vitória da América cosmopolita, tolerante, progressista, culta, contra a América patrioteira, ultra-conservadora, religiosamente fundamentalista. No Irão, vamos ver o que vai acontecer nas eleições, se algum reformista consegue realmente chegar ao poder e mudar alguma coisa.
Tal como durante a I Guerra Mundial os comunistas proclamavam — com razão, reconheça-se — que a guerra era uma guerra de imperialismos, fomentada pelo capital, e que quem morria nas trincheiras eram os operários e os explorados de todos os países envolvidos, também hoje as vítimas principais dos conflitos são a arraia-miuda. Quem lucra com os conflitos são os traficantes de armas, e os países que as produzem. Certas coisas não mudam. Hoje, deveria haver um apelo à Internacional da Decência. Pessoas decentes de todo o mundo, uni-vos!
Felizmente, a informação circula agora de uma forma que ninguém suspeitaria há umas décadas. Hoje, durante uma guerra, há gente de ambos os lados a blogar, a trocar informações, a enviar vídeos feitos no telemóvel… Esta acessibilidade facilita a partilha de experiências terríveis. Mostra-nos, ao vivo, o sofrimento de ambos os lados, permite-nos ver o suposto inimigo com um rosto humano. Não há nada mais desmoralizante para um combatente do que ver a cara do inimigo. É muito mais difícil matar quando se olha nos olhos.
Todo o treino militar, e toda a propaganda que acompanha as campanhas militares, se baseia precisamente na desumanização do inimigo. Mas quando afinal vemos esse inimigo com um filho morto nos braços, chorando desesperado, só o mais empedernido não se comove e não se questiona sobre o que está a fazer.
Às vezes sinto-me a viver num brave new world: vejo os meus filhos a jogar na Playstation online e estão jogar com miúdos americanos, russos, ingleses, indianos, espanhóis… E conversam e fazem amizades. De seguida vão para o PC e conversam no Messenger com outros miúdos que tanto podem estar a um quilómetro daqui como a cinco mil. Trocam experiências, conversam. Mostram-se e vêem-se. E, acima de tudo, concluem que aquilo que os diferencia é pouco, comparado com aquilo que têm em comum, independentemente da cor, da religião, do modo de vida, do país, da língua…
Nem tudo são rosas, claro, e confesso que sou um panglossiano… Tenho tendência para o optimismo e para acreditar na bondade intrínseca das pessoas. Apesar das terríveis calamidades que os homens continuam a infligir uns aos outros, vejo alguma luz no fundo do túnel. As novas gerações têm uma visão do mundo menos provinciana, espero eu, precisamente porque para eles o mundo se tornou verdadeiramente a famosa «aldeia global». E, evidentemente, a divisão cidade/província é apenas conceptual: hoje, pode ser-se cosmopolita vivendo no meio da serra, e provinciano vivendo numa grande cidade. É uma questão de atitude perante o outro, e perante o mundo.
Enfim… Talvez um dia os conflitos se resolvam com os dirigentes mundiais a fazer uma guerra virtual. Dois presidentes a jogar Call of Duty, versão 32.5, para resolverem um diferendo de forma virtual… Isso é que era!

aldeiaglobal

In this century that still smells like freshly painted it seems to me that the real clash of civilizations is not the clash between East and West, or between Muslim and Christian countries, nor any other such dividing line. The real clash is within each of those barricades. Let me explain: the civilizational clash of today is between an urban view of the world — cosmopolitan, tolerant, encompassing differences within it — and a nationalist, reactionary, parochialist and fundamentalist vision. It’s not an accident that the word civilization derives from civitas, the city. This happens in the USA as it happens in Iran. It happens here in Portugal, as it happens all over Europe. With ebbs and flows, but, for now, with a huge victory for the side of — let’s call it that way — the progressive side. I’m talking about Obama, of course. That was a victory of the cosmopolitan, tolerant, progressive, educated America, against the ultra-conservative, ultra-patriotic and religiously fundamentalist America. In Iran, we’ll have to wait and see what happens in the coming election, and if some reformist really gets to power and is able to change anything.
Just as during the First World War the communists proclaimed — rightly, we must concede — that that war was a war of imperialisms, fed by capitalism, and that who was dying in the trenches were the workers and the explored masses of all countries implied, so today the main victims of conflicts are the John Does. Those who benefit from it are weapons dealers and countries which produce them. Certain things haven’t changed yet. Today, we should have a call to the International of Decency. Decent people of the world, unite!
Fortunately, information nowadays travels in a way that no one would suspect a few decades ago. Today, during a war, there are people from both sides blogging, exchanging information, sending cell phone videos… This accessibility enables the sharing of terrible experiences. It shows us, live, the sufferings from both sides; it allows us to see the supposed enemy with a human face. There is nothing more demoralizing for the combatant than to see the enemy’s face. It’s much harder to kill when you are looking the enemy in the eye.
All military training, and all the propaganda that goes with military campaigns, used to focus precisely on the de-humanization of the enemy. But when instead you see that enemy with a dead son in his arms, crying in desperation, you have to be almost inhuman not to let yourself be touched and to manage not to question what you are doing.
Sometimes I feel like I’m living in a truly new and better world: I see my kids playing online on the Playstation, and they’re playing with American, Russian, French, Indian kids… And they talk and they make friends. Then they go their PCs and they chat online with other kids, who may be next door or 5000 kms away. They exchange experiences, they talk about their daily lives. They see each other as basically the same. They reach the conclusion that whatever may separate them is infinitely less than what brings them together, be it music, games, or whatever — regardless of colour, religion, way of life, culture, country…
Not all of it are roses, of course. And I confess myself a panglossian… I have a tendency to optimism and to believe in the innate goodness of people. Despite the terrible calamities that men still inflict upon each other, I see some light at the end of the tunnel. These new generations have a less parochial view of the world, I expect, precisely because for them the world has truly become the famous «global village». And, obviously, the division I mention between the cities and the «province» is merely conceptual: today, you can be a true cosmopolitan while living in the mountains, as you can be parochial living in a big city. It’s only question of attitude regarding the other and the world.
Maybe someday conflicts will be solved by having country leaders playing a round of Call of Duty, version 32.5, in order to settle a difference in a virtual way. Now that would be something!

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Responses

  1. Hi, good post. I have been pondering this issue,so thanks for posting. I’ll certainly be subscribing to your posts. Keep up great writing


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