Publicado por: Mário Matos | 08/05/2009

Mostarda vs. Ketchup, ou Élite vs. Povo

Já aqui falei sobre a direita americana. Mas não há maneira de evitar voltar ao tema. Essa gente anda mesmo desesperada: agora, até o facto de o presidente Obama pedir mostarda de Dijon com um hamburguer se tornou motivo de falatório. Estranho? No mínimo… Para gente como o insuportável Sean Hannity (o homem dá-me vómitos, de tal maneira destila veneno), esse simples fait divers é significativo: o presidente é elitista — uma acusação que já vem dos tempos da campanha para a presidência. Qualquer americano que se preze come o seu hamburguer com ketchup, esse condimento quintessencial da «cultura» gastronómica norte-americana que, por mero acaso, é de origem chinesa… Agora, pedir um cheeseburger com «uma mostarda forte, picante, talvez Dijon», como fez o presidente… Bem isso é um insulto de um elitista sem ligação com as massas — aparentemente.

Isto pode parecer bizarro para nós, europeus, mas a América, essa terra mítica, mãe de tanta inovação e tanto progresso, alberga no seu seio nichos (nichos é força de expressão, porque representam alguns milhões de indivíduos) da mais pura boçalidade e do mais profundo reaccionarismo.

Ainda há dias, a inefável senadora Michelle Bachmann (que um dia deste há-de merecer um post só dedicado a ela) se declarava «intrigada» pelo facto de todas as epidemias / pandemias de gripe terem ocorrido quando os Democratas estavam no poder. Sublinhava a senhora que o facto de esta pandemia da gripe suína, ou H1N1, ter ocorrido agora, com mais um Democrata no poder, deveria ter alguma razão de fundo, inconfessável, algo de sinistro… É hilariante, até certo ponto, mas sobretudo porque a senhora nem sequer faz os trabalhos de casa: rapidamente os comentadores mais lúcidos (ou seja, quase todos) fizeram notar que uma das pandemias ocorreu durante uma presidência republicana…

De qualquer forma, o que é significativo é este recurso constante ao disparate como forma de instilar medo na populaça.

Há tempos escrevi aqui sobre o choque de civilizações com sendo algo de interno às sociedades. Os Estados Unidos são neste momento um perfeito exemplo disso: aquilo a que na América se chamam as «guerras culturais», ou seja, o confronto entre duas visões do mundo, entre duas culturas (globalmente falando). Uma visão lliberal, aberta, cosmopolita, contra uma visão arcaica, provinciana, ultra-conservadora e retrógrada. Esta é representada pela América de que Palin se fez arauto durante a campanha: a América supostamente real, das pequenas cidades, a América idílica e mítica onde todos se conhecem, são todos brancos e muito amigos, dão valor essencialmente à família e ao dinheiro, vão à missa aos Domingos, se embebedam às sextas à noite, ouvem música country e o prograna ultra-reacccionário de Rush Limbaugh…

Do outro lado, está a América da diversidade, com gays que querem casar, com judeus que fazem programas de humor (como Jon Stewart) que têm mais reputação do que estações de notícias como a CNN… A América urbana, a América da cultura, das artes, das universidades e das tecnologias de ponta, que depois os conservadores aproveitam, claro, para seu próprio benefício…

Esta América é, como sempre, um verdadeiro laboratório, um cadinho de onde sairão, provavelmente, as principais ideias inovadoras para este século.


http://www.huffingtonpost.com/2009/05/08/obama-mustard-attack-beco_n_199953.html

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