Publicado por: Mário Matos | 11/05/2009

Uma reflexão lúcida sobre o Paquistão e o Afeganistão

A crise no Paquistão começa a ser deveras preocupante. Passe o exagero típico dos floreados linguísticos dos radicais islâmicos, o aviso noticiado ontem no i (http://www.ionline.pt/content/4229-talibas-ameacam-controlar-paquistao-em-tres-dias) deve ser levado a sério. Há ali uma catástrofe à espreita (para além da humanitária, que já está criada; vd. http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1380594&idCanal=11).

Esperemos que Obama saiba dar os passos certos. O artigo que se segue dá umas pistas preciosas.

Graham E. Fuller é um antigo chefe de posto da CIA em Kabul e ex-vice-presidente do Conselho Nacional de Informações da CIA. É autor de numerosos livros sobre o Médio Oriente, incluindo The Future of Political Islam. Num artigo que surgiu ontem no Huffington Post, (http://www.huffingtonpost.com/graham-e-fuller/global-viewpoint-obamas-p_b_201355.html) faz uma análise muitíssimo interessante sobre o futuro da região e de como esse futuro depende de uma nova abordagem por parte da administração norte-americana. Por isso decidi traduzi-lo:


Apesar de toda conversa acerca do «poder inteligente», o presidente Obama está a seguir pela mesma via do falhanço no Paquistão que George Bush abriu. As realidades sugerem a necessidade de uma drástica revisão do pensamento estratégico norte-americano.

— A força militar não conseguirá ganhar o dia, nem no Afeganistão, nem no Paquistão; as crises só pioraram sob a bota dos militares americanos.

— Os talibãs representam islamistas zelosos e maioritariamente ignorantes, das montanhas. São também etnicamente pashtunes. A maioria dos pashtunes vê os talibãs — goste deles ou não — como veículo primordial para a restauração do poder pashtune sobre o Afeganistão, perdido em 2001. Os pashtunes estão também entre os povos mais ferozmente nacionalistas, tribalizados e xenófobos do mundo, unidos apenas contra o invasor estrangeiro. Bem feitas as contas, os talibãs são provavelmente mais pashtunes do que islamistas.

— É fantasia pensar que alguma vez se conseguirá selar a fronteira Afeganistão-Paquistão. A «Linha Durand» é uma linha arbitrária, imperial, traçada por cima de tribos pashtunes de ambos os lados da fronteira. E existem duas vezes mais pashtunes no Paquistão do que no Afeganistão. A luta de treze milhões de pashtunes afegãos já inflamou os vinte e oito milhões de pashtunes do Paquistão.

— A Índia é a principal ameaça geoestratégica ao Paquistão, e não o Afeganistão. O Paquistão precisa, por isso, de manter sempre o Afeganistão como Estado amigo. A Índia, além disso, está determinada a conquistar uma posição forte no Afeganistão — nas arenas económica, política e de informações —, o que gera desconforto em Islamabad.

— O Paquistão, por esse motivo, nunca romperá os laços com os pashtunes, nem os abandonará, em qualquer dos países, quer sejam radicais islâmicos ou não. O Paquistão nunca se poderá dar ao luxo de ter pashtunes hostis a Islamabad a controlarem Kabul, ou dentro do próprio país.

— Em toda a parte a ocupação gera ódios, conforme os EUA têm vindo a aprender. No entanto, os pashtunes não têm feito parte do movimento jiadista ao nível internacional, o que é notável, muito embora muitos deles sejam realmente rápidos a aliar-se, internamente, à Al-Caida contra os militares americanos.

— Os EUA tiveram todas as razões para retaliar contra a presença da Al-Caida no Afeganistão após o ultraje do 11 de Setembro. Os talibãs foram, além disso criadores de um governo incompetente e duro. Mas, mais do que vencidos, em 2001 os talibãs apenas retiraram, para poderem voltar a lutar mais tarde. Na verdade, pode debater-se se teria sido possível — com pressão constante do Paquistão, do Irão, da Arábia Saudita e quase todos os outros países muçulmanos que viam os talibãs como primitivos — tê-los forçado a retirar o apoio à Al-Caida, sem ter sido necessário o recurso à guerra. Esse debate, de qualquer modo, já não importa. Mas as consequências dessa guerra são grandes, debilitantes e continuam a alastrar.

— A situação no Paquistão tem ido de mal a pior em consequência directa da guerra travada pelos EUA na fronteira afegã. A política americana levou agora a guerra para lá da fronteira, para o Paquistão, com as suas incursões, bombardeamentos por UAVs e assassinatos: a resposta clássica a uma incapacidade para lidar com a insurreição num pais. Lembram-se da invasão do Camboja para salvar o Vietname?

— O carácter profundamente islâmico e tribal do domínio pashtune na província da fronteira noroeste do Paquistão não se transformará por via de uma invasão ou da guerra. Essa tarefa exigirá provavelmente várias gerações até que comece a mudar o carácter social e psicológico profundamente enraizado na área. A guerra leva a uma resposta visceral e atávica.

— O Paquistão está de facto a começar agora a ceder à pressão constante exercida directamente pelos EUA. Os impulsos anti-americanos no Paquistão estão a atingir um pico, reforçando o radicalismo islâmico e forçando a uma aquiescência relutante até por parte dos não-islâmicos.

Apenas a retirada da força militar americana e da NATO do terreno permitirá que o processo de emoções ao rubro esfrie no Paquistão. O Paquistão tem boa experiência de governação e é bem capaz de lidar com os seus próprios tribalistas e islamistas em circunstâncias normais; até recentemente, os islamistas paquistaneses tinham uma das mais baixas taxas de sucesso eleitoral do mundo muçulmano.

Mas as políticas americanas levaram agora o nacionalismo local, a xenofobia e o islamismo a um pico febril combinado. Enquanto Washington exige que o Paquistão salve as políticas americanas falhadas no Afeganistão, Islamabad já não consegue gerir a sua crise interna.

O exército paquistanês é mais do que capaz de manter o poder do Estado conbtra as  milícias tribais e de defender as suas armas nucleares. Apenas um espírito nacionalista convulsivamente revolucionário poderia alterar isso — que é coisa que a maioria dos paquistaneses não deseja. Mas Washington ainda pode conseguir ter sucesso em desestabilizar o Paquistão, se perpetuar as suas presentes estratégias de linha dura. Um novo capítulo de governo pela força militar — que não é o que o Paquistão precisa — será o resultado mais provável, e mesmo assim as políticas básicas de Islambad não mudarão, a não ser ao nível cosmético.

No fim de tudo, apenas os próprios islamistas moderados poderão prevalecer sobre os radicais, cuja principal fonte de legitimação advém do incitamento à resistência popular contra o invasor externo. Infelizmente, as forças americanas e os radicais islamistas estão agora a entrar num círculo auto-alimentado.

Seria encorajador ver uma democracia sólida, operante, estabelecida no Afeganistão. Ou os direitos das mulheres e a educação difundidos pelo país — e essas foram áreas em que, ironicamente, os soviéticos foram razoavelmente bem sucedidos. Mas essas mudanças não acontecerão nem mesmo no espaço de uma geração, dada a história de devastação social e económica do país nos últimos trinta anos.

A ameaça da Al-Caida já não vem das grutas das regiões de fronteira, mas sim do seu simbolismo, que desde então se metastizou a outros activistas do mundo muçulmano. Entretanto, os pashtunes continuarão a lutar por ter uma voz com peso nacional no Afeganistão. Mas poucos pashtunes de ambos os lados da fronteira manterão uma perspectiva radical ou internacional jiadista, assim que desapareça o incitamento da presença americana. Ninguém, de nenhum dos lados da fronteira, realmente quer isso.

O que se pode fazer deve estar em consonância com a cultura política. Que as organizações não-militares internacionais e neutras, livres de coloração geopolítica, assumam tratar das feridas afegãs e a reconstrução das estruturas do Estado.

Se os passados oito anos tivessem mostrado sucesso contínuo, talvez se pudesse argumentar de outra forma a favor das políticas americanas. Mas as provas no terreno demonstram apenas um deteriorar continuado e um prognóstico cada vez mais negro. Vamos ter mais do mesmo? Ou haverá o reconhecimento pelos EUA de que a presença americana se tornou agora mais o problema do que a solução? É esse debate que não estamos a ouvir.

(C) 2009 GLOBAL VIEWPOINT NETWORK; (TM) TRIBUNE MEDIA SERVICES, INC.
© tradução: Mário Matos
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