Publicado por: Mário Matos | 14/05/2009

Dan Brown, Daniel Silva, dois lados de uma moeda (de dólar)

A propósito da estreia de Anjos e Demónios, que não tenciono ir ver… E da crítica hoje publicada por Alexandre Borges no i (http://www.ionline.pt/content/4283-anita-aventura-se-no-vaticano):

Há anos, quando O Código da Vinci estava no auge (o livro, não o filme), lá me deixei levar na onda, comprei e li. Como toda a gente andava a ler esse livro, trocavam-se opiniões, e muitas vezes ouvi pessoas insuspeitas a comentarem que era muito bom. Bem, o meu comentário foi sempre e apenas de que aquele livro só podia mesmo ser escrito por uma americano — por um certo tipo de americano, entenda-se.

A leviandade com que a obra passa por cima de séculos de história e tradições europeias, com que mistura tudo, cozinha um cocktail de intriga e mistérios (supostamente muito bem estudados e verídicos, mas já lá iremos) nunca poderia sair de uma cabeça europeia. Ou, por outra: poder, podia, mas não lhe seria fácil encontrar editor… São milhares os originais recebidos nas editoras, de autores que julgam ter descoberto uma fascinante conspiração e resolvem fazer dela um livro. Em 99,9% dos casos, os autores andam à beira da patologia mental e escrevem tão bem como um macaco a martelar uma vida inteira numa máquina de escrever: por mera probabilidade estatística, até o macaco pode acabar por escrever uma sequência de letras que forme uma palavra real.

Mas a América, já se sabe, é outra coisa. Aí, quer em livro, quer em filme, ninguém hesita em distorcer a verdade histórica em prol da acção. Braveheart está cheio de inconsistências históricas, mas isso não importa nada. E não há como os americanos para montarem fábricas para onde entram cartilagens e focinhos de porco e saem belas salsichas. No mundo da edição é o mesmo: há uma máquina bem montada que pega nos originais e os entrega a um editor (ou mais), que se encarrega de ir «limpando» o original de inconsistências grosseiras, que corrige os pontapés na gramática, etc. O produto final é sempre razoavelmente limpo, mesmo que os ingredientes iniciais sejam fracos.

Essa maneira de trabalhar não acontece tanto na Europa (sobretudo mais a sul), onde os autores se consideram todos candidatos ao Nobel. Mexer-lhes numa vírgula é crime… Depois sai disparate. O Equador teria beneficiado muito em ser devidamente sujeito a um editing rigoroso. Teria poupado Miguel Sousa Tavares a alguns embaraços e às centenas de correcções que depois foram sendo feitas nas edições sucessivas. Mas isso é outra história.

O problema de Dan Brown é que o cavalheiro se leva a sério (ou finge levar-se a sério) — não em termos literários, porque decerto não tem qualquer ilusão da qualidade literária da sua obra, mas em termos de veracidade. E isso rendeu bem, em dólares. O livro lê-se bem, claro. Como entretimento de fim de semana, serve. Serve tão bem como ver um filme de Schwarzenegger ou uma comédia qualquer sem consequências. Não vem daí mal ao mundo. O problema é que o livro quer fazer passar por verdades incontestáveis coisas que são pura fantasia, liberdades criativas. E que Brown continue a afirmar que é tudo verdade e tudo solidamente investigado. Balelas; Brown leu dois ou três livros sem credibilidade científica nenhuma, misturou bem, pôs em lume brando e já está.

Além disso, as personagens, a começar pelo famoso professor de uma cadeira universitária que não existe em parte nenhuma (uma tal de «simbologia», que em qualquer universidade digna desse nome seria Semiótica, têm a espessura de um saco de batatas fritas (vazio). Existem apenas em função do desenrolar dos enigmas.

Mas enfim, não é minha intenção fazer aqui crítica literária a uma obra que, aliás, nem merece que se perca tempo com isso.

O interessante nisto tudo tem mais a ver com números. Partindo do princípio de que os direitos de autor sejam (estimemos) de 10% sobre o preço de capa, um autor americano como Dan Brown que acerte na mouche e publique um livro que obtenha sucesso ganha o euromilhões. Falamos de tiragens (em paperback e em pocket) da ordem dos milhões… Com um preço de capa médio de (vamos supor) dez dólares… bem, é fazer as contas, como dizia o outro. Não sei, nem me vou dar ao trabalho de ver, quantos milhões de exemplares vendeu o Código da Vinci; mas vamos supor que tenham sido apenas 10 milhões. Vezes 10 dólares, vezes 10%… Ora isso dá… Uma bela maquia.

E isso por um livro sem nada de extraordinário, mas sabiamente recheado de supostas revelações, apoiadas em supostas fontes fidedignas. É esse o segredo fundamental do Código: fazer crer que haja ali realmente algum fundo de verdade.

Infelizmente, a maior parte das pessoas lê pouco; a maioria ignora muita coisa; e a esmagadora maioria é muito crédula, quando toca à palavra escrita. «Se ele escreveu, deve ter investigado. Isto bate certo… Deve haver aqui verdade. O homem não ia inventar isto…», etc. Afinal de contas, os livros de auto-ajuda, new age e quejandos, cheios de revelações, tarots, receitas para uma vida feliz e afins, vendem-se como pãezinhos quentes… As pessoas são mesmo muito crédulas, quando lhes falta cultura a sério (científica e literára). É triste, mas é verdade.

Felizmente, há autores que vendem muito sem precisarem de recorrer às manhas de Dan Brown. Daniel Silva é um deles. Não perco um livro dele e recomendo sempre a toda a gente. São cheios de acção, de intriga a alta velocidade, têm personagens com espessura psicológica e, ainda por cima, são didácticos. Aprende-se muito sobre o conflito israelo-árabe ao lê-los, por exemplo. Ao contrário de Dan Brown, Silva cita sempre no final as suas fontes — essas, sim, credíveis –, que incluem amigos bem posicionados. Afinal, trabalhou na CNN, conhece gente bem colocada nos meios da CIA e do Pentágono, sabe do que fala, e, quando não sabe, pergunta a quem deve saber.

Já agora, e para quem não saiba, Daniel Silva é norte-americano, mas é filho adoptivo de um português (de New Bedford, se bem me lembro). Talvez por isso, em quase todos os seus livros há uma passagem, ainda que breve, por Lisboa.

Leiam o Daniel Silva e esqueçam os Anjos e Demónios e o Dan Brown. O homem já ganhou dólares que cheguem a troco de tão pouca literatura. E, mais tarde ou mais cedo, Gabriel Alon, a personagem principal dos livros de Silva, há-de passar ao cinema. Aí, sim — se não estragarem tudo — valerá a pena ir ver.

Quanto à estreia de Anjos e Demónios, eu boicoto-a. Não vou.

http://www.ionline.pt/content/4277-anjos-e-demonios-estreia-hoje

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Responses

  1. Daniel Silva não conheço, mas quanto ao Dan Brown não podia estar mais de acordo.


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