Publicado por: Mário Matos | 19/05/2009

Professores, Jornalistas, Televisão e o Politicamente Correcto

O caso da professora de algures no norte que teve «conversas» estranhas sobre sexo com os alunos e os ameaçou depois com represálias despertou-me a curiosidade. Não a curiosidade mórbida do cão de fila que sente o cheiro a sangue e a escândalo, mas a curiosidade do cidadão que se recusa a engolir tudo como parece ser à primeira vista.

Explico-me: o caso em si é, de facto, escandaloso, pelo teor das conversas e pelo tom (que tive o desprazer de ouvir na reportagem de abertura do jornal da TVI às oito da noite, não sem algum incómodo pelo facto de os meus filhos estarem a ouvir também…)

Aí começam os problemas. O caso mertece alarme — mas alarme entre os pais dos alunos envolvidos e a escola onde a senhora «ensina». E por aí deveria ficar-se. Que vantagens há em que todo o país fique a saber disto? É que, quanto a mim, o que mais sobressai das gravações é que a senhora está perturbada e a precisar de ajuda psiquiátrica — aquilo não é um comportamento normal em ninguém, e muito menos numa professora experiente e que, segundo os próprios pais, nunca levantou quaisquer suspeitas de comportamentos impróprios. Quanto a mim, é um caso clínico e, como tal, deveria merecer reserva e discrição. Apoio para os alunos e os pais, para a professora…

O que cria todo o escândalo é ver isto tudo a abrir noticiários sedentos de sangue, sem que se perceba que vantagem há nisso. É informação, dirão os senhores jornalistas — pois é. Mas bastava dar a informação como o faz o i nesta notícia. Não é preciso mais do que isto.

Ver depois a ministra da educação a ser interrogada sobre o caso (como se o ministério ou a ministra tivessem alguma coisa a ver com o caso ou pudessem dizer algo de relevante sobre ele) é caricato. É mesmo procurar fazer de uma coisa triste, mas menor, um «caso».

Mais triste ainda é ver aquele sujeito de bigode que parece um dos Dupond e que representa o sindicato dos professores a dizer, cautelosamente, politicamente correcto, que é preciso averiguar, não tirar conclusões precipitadas, etc. — mas homem, basta ouvir, como todos infelizmente ouvimos, as palavras da senhora. Ali não há dúvidas: o que o senhor do sindicato deveria dizer era precisamente que se trata de um caso óbvio de perturbação mental da professora. Ponto. Nada mais deveria haver de político (correcto ou não) no caso. Mas não: cada um assume logo as posições politicamente correctas (adequadas à trupe que representa).

É uma história sórdida do princípio ao fim: da professora, que, insisto, não pode estar boa da cabeça; do sindicato, que em vez de se calar ou minimizar o assunto vem com palavras dúbias dizer que «vamos ver»; e, sobretudo, de um certo tipo de jornalismo que começa a imperar.

Este país está a ficar (ou estes tempos estão a ficar) muito americanizados: dá-se tudo por um bom escândalo, a notícia transforma-se num voyeurismo (quem obteve aquelas gravações? a troco de quê?), os jornalistas tornam-se defensores ultrajados da moralidade ao mesmo tempo que se comprazem a mostrar a imoralidade… Hipocrisia em estado puro. Um nojo. Conhecem um país onde abunda a prostituição, a pornografia, os bares de strip, o jogo, etc., mas depois pára tudo quando a Janet Jackson mostra um seio num espectáculo? Parece que poderá ser assim por cá também.

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Responses

  1. Sgradou-me o seu artigo e apesar de ser a visada senti exacamente o mesmo quando ouvi a gravação truncada e limpa dos barulhos de fundo. Agradeço-lhe a atenção e informo-o que foi uma armadilha, cuja gravação tema 110 minutos.
    Grata pela comprensão, posso assegurar-lhe que não estou efectivamente louca.
    Josefina


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