Publicado por: Mário Matos | 21/05/2009

Para um ensino de qualidade: Vocação, Formação, Supervisão

Todo este escândalo em volta do caso da professora com o sexo na boca fez-me pensar um pouco sobre todo o sistema de ensino, que é coisa, já se sabe, que dá pano para mangas.

Recordo-me da minha passagem (meteórica) pelo sistema, quando, saído do serviço militar, e por falta de alternativa, lá fui experimentar dar aulas. Passei um ano de serviço militar como instrutor, e até achava que tinha jeito para ensinar. Não percebi foi que ensinar recrutas é muito diferente de ensinar miúdos. Não se podia pô-los a fazer flexões. Não se podia gritar com eles. Nada…

Aliás, o Hélder — o miúdo mais problemático de uma turma — chegou a desafiar-me com simplicidade quando uma vez o instei a que se calasse e ficasse quieto: — O que é que o stôr faz? Não me pode bater!

Claro que não, nem o faria, mas a sensação que aquela peste tinha de que podia fazer o que lhe desse na gana, sem que o professor pudesse fazer o que quer que fosse — a não ser mandá-lo para a rua, que era precisamente o que ele queria… — , deixou-me sempre um travo amargo.

Mais amargo, e falando mais a sério, foi o gosto que me ficou de ver que havia na mesma turma quatro ou cinco miúdos inteligentes e aplicados a quem eu não conseguia ensinar nada, porque os restantes perturbavam incessantemente a sala de aula.

Não sei como funcionam hoje as coisas, e quero crer que sejam melhores, mas nessa altura (1987), fui colocado numa escola que incluía alunos de uma zona «problemática» de Lisboa. Mais: foi-me entregue a direcção da pior turma. Ponto interessante: nunca tive formação para ensinar. Acabara um curso superior, mas não tinha a mínima formação para ensinar. Pior, na escola não tive qualquer enquadramento. Fui lançado às feras, e ponto. Ninguém me perguntou como estavam a andar as coisas, ninguém me ofereceu conselhos, ninguém me avaliou… Nada. Zero.

Rapidamente me apercebi de que era um erro estar ali. Para ser professor, teria de ter tido, ou de vir a ter urgentemente, formação específica. Mas, mais do que isso, talvez, teria de ter vocação. E manifestamente, não a tinha. Não era aquilo que eu queria fazer para o resto da vida. Saí antes do final do ano lectivo.

Ainda guardo alguma culpa por sentir que falhei àqueles quatro ou cinco miúdos que mereciam mais e melhor de mim e do sistema em geral. Mas os outros fizeram-me fugir a sete pés.

Por isso, fiquei sempre com esta ideia de que há três coisas fundamentais para o sucesso no ensino: formação, vocação e supervisão.

Quanto à formação que existe hoje, suspeito de que trata mais de ensinar o famoso «eduquês» do que ensinar a ensinar; mas não quero afirmar o que não sei com certeza. Quanto à vocação, já se sabe que hoje em dia 90% dos professores estão ali por falta de alternativa, e não por vocação. Ora, a minha experiência convenceu-me de que o ensino é um sacerdócio; só tem sucesso quem realmente se dedica de alma e coração. Os restantes andam por ali a ganhar a vidinha. Lembro-me também da minha surpresa ao descobrir, na sala dos professores (que eu antes vira sempre como uma espécie de Olimpo onde os deuses iam descansar nos intervalos) a maior concentração de gente desequilibrada que jamais vi. Aquilo eram professores! Assisti a discussões de chinelo no pé por motivos fúteis (como, por exemplo, por causa da última sanduíche de queijo disponível no bar). Gente com muito pouca elevação e ainda menos educação. E vi como havia duas ou três pessoas que genuinamente tinham vocação e gosto pelo ensino. Uma delas era uma jovem como eu, do meu grupo, que se mantinha sempre muito calma e que os miúdos adoravam; a outra era uma professora de matemática já à beira da reforma, sempre de bata branca e galochas, e sempre rodeada pelos miúdos, para quem tinha um perene sorriso bondoso e interessado.

Não há nada como ter vocação e gosto pelo que se faz…

Quanto à supervisão, não sei bem como estão as coisas hoje em dia, mas calculo que não tenham melhorado grandemente. Após os estágios, a sala de aula é a coutada reservada do professor. E por isso acontecem estes disparates como o da professora lá do norte.

Todas as actividades profissionais estão sujeitas a supervisão; a dos professores, apesar de tanta responsabilidade de que se reveste, parece que não. Como é possível haver conversas daquelas numa sala de aulas e ninguém saber de nada, ao ponto de ser necessário as alunas gravarem às escondidas?

As escolas e os sistema de ensino em geral precisam de uma gestão nova. O modelo que vigora não está a dar resultados. Mas o que se vê é isto: impera o vale tudo, de ambos os lados: dos alunos e dos professores.

Depois, já se sabe, paga o justo pelo pecador… e pagamos todos com gerações sucessivas de gente mal formada, muita da qual amanhã vai estar a ensinar… Mau karma para o país, não será?

A este respeito, é de saudar o editorial de André Macedo no i de ontem, a ler aqui. Já vai sendo altura de chamar os bois pelos nomes.

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